Mattarella celebra 80 anos da autonomia do Alto Adige
Presidente italiano defende modelo de autonomia do Alto Adige/Südtirol nos 80 anos do Acordo de Paris, marco para proteção de minorias na Itália.

O presidente da Itália, Sergio Mattarella, participou nesta semana em Merano, no Alto Adige (Südtirol), das celebrações dos 80 anos do Acordo de Paris, também conhecido como Acordo De Gasperi-Gruber, marco histórico que deu origem ao regime de autonomia da região. Durante o discurso, Mattarella afirmou que "não se é estrangeiro em sua própria casa", frase que resumiu a defesa do modelo de convivência entre italianos de língua italiana, alemã e ladina naquela província, segundo a Comunità Italiana.
O que disse Mattarella em Merano
A cerimônia contou com a presença do presidente da Áustria, Alexander Van der Bellen, o que reforçou o caráter bilateral do acordo assinado em 1946 entre Itália e Áustria. Mattarella relacionou a autonomia do Alto Adige ao artigo 3º da Constituição italiana, que trata da igualdade de todos os cidadãos perante a lei, sem distinção de língua ou origem, segundo a Comunità Italiana.
Ao dizer que ninguém deveria se sentir estrangeiro na própria terra, o presidente italiano buscou traduzir o espírito do Acordo De Gasperi-Gruber: garantir que a população de língua alemã do Alto Adige — maioria em boa parte da província — pudesse viver plenamente sua identidade cultural e linguística sem abrir mão da cidadania e da integração ao Estado italiano. A presença conjunta dos chefes de Estado italiano e austríaco na cerimônia foi lida como símbolo da reconciliação entre os dois países em torno de uma questão que, décadas atrás, chegou a gerar tensões diplomáticas e episódios de violência na região.
A história por trás da autonomia do Alto Adige
Para entender o peso simbólico da data, é preciso voltar ao início do século XX. O território hoje conhecido como Alto Adige ou Südtirol fazia parte do Império Austro-Húngaro e só passou ao controle da Itália em 1919, como resultado dos acordos que redesenharam as fronteiras europeias após a Primeira Guerra Mundial.
Nas décadas seguintes, sob o regime fascista de Benito Mussolini, a região foi submetida a uma política de italianização forçada, que incluiu a proibição do ensino em língua alemã, a alteração de nomes de lugares e sobrenomes, e incentivos à migração de italianos de outras regiões para alterar o equilíbrio demográfico local, de acordo com o relato da Comunità Italiana sobre o contexto histórico celebrado em Merano.
O Acordo De Gasperi-Gruber, assinado em 1946 entre o então premiê italiano Alcide De Gasperi e o chanceler austríaco Karl Gruber, foi o primeiro passo formal para reverter esse quadro, ao prever proteções específicas para a população germanófona da região. O acordo abriu caminho para os Estatutos de Autonomia de 1948 e, posteriormente, de 1972, que ampliaram significativamente as competências legislativas e administrativas da província em relação a Roma.
A chamada "questão do Alto Adige" só foi formalmente encerrada em 1992, quando a Áustria e a Itália comunicaram à Organização das Nações Unidas (ONU) que consideravam a disputa resolvida, após décadas de negociações e ajustes no modelo de autonomia. Desde então, o Alto Adige é frequentemente citado como um dos exemplos mais bem-sucedidos de gestão de minorias linguísticas dentro de um Estado unitário na Europa.
Por que isso interessa a descendentes de italianos
Para brasileiros que estudam suas raízes italianas, a autonomia do Alto Adige oferece uma lição importante: a Itália não é um bloco cultural homogêneo, e sua unidade nacional convive, há décadas, com fortes identidades regionais, línguas locais e estatutos especiais de autogoverno. Regiões como o Alto Adige, o Trentino, a Sicília, a Sardenha, o Vale de Aosta e o Friuli-Venezia Giulia têm autonomia diferenciada em relação ao restante do país, refletindo histórias, línguas e trajetórias próprias.
Esse tipo de compreensão é útil especialmente para quem pesquisa a origem da própria família e busca contextualizar registros civis, sobrenomes germanizados ou italianizados, e mudanças de fronteiras que afetaram diretamente a documentação de antepassados que emigraram do Alto Adige ou de regiões de fronteira. Quem está em processo de busca de certidões na Itália e encontra documentos de regiões como essa deve levar em conta esse contexto histórico, já que nomes e grafias podem ter variado conforme o período — antes ou depois da italianização fascista, por exemplo.
O tema também dialoga diretamente com quem acompanha Cidadania Italiana e Notícias da Itália, pois mostra como o país lida, na prática, com questões de identidade, pertencimento e cidadania dentro de suas próprias fronteiras — debate que ecoa, guardadas as devidas proporções, nas discussões atuais sobre quem tem direito a ser reconhecido como italiano. Para quem pensa em se mudar para a Itália ou já vive por lá, entender as particularidades regionais também é relevante para quem acompanha o conteúdo de Vida na Itália, já que a experiência de viver no Alto Adige, com seu bilinguismo oficial e forte identidade própria, é bastante diferente da vivida em outras regiões do país.
A celebração dos 80 anos do Acordo De Gasperi-Gruber, com a presença conjunta dos presidentes da Itália e da Áustria, reforça que a autonomia do Alto Adige segue sendo tratada como um caso de sucesso institucional, mais de três décadas depois de a questão ter sido oficialmente encerrada perante a ONU. Para descendentes de italianos, o episódio é um lembrete de que a "italianidade" é plural e foi construída, em muitas regiões, a partir da negociação entre identidades diferentes dentro de um mesmo Estado.
Quem busca orientação sobre como essas nuances regionais podem impactar processos de reconhecimento de cidadania pode contar com o acompanhamento de uma assessoria especializada em cidadania italiana, que lida rotineiramente com documentos de diferentes regiões e períodos históricos da Itália.
Fonte: Comunità Italiana




