Italian Citizenship

Em Talian, Massolini rebate Tajani sobre italianidade no RS

Médico gaúcho Paulo Massolini responde em Talian às falas de Tajani no Brasil, defendendo a memória da imigração italiana e criticando o ministro.

Em Talian, Massolini rebate Tajani sobre italianidade no RS
Foto: © European Union 2018 - Source : EP (Attribution)

Um vídeo em Talian, o dialeto vêneto falado por descendentes de italianos no Rio Grande do Sul, viralizou entre comunidades ítalo-brasileiras nesta semana. Nele, o médico e liderança histórica do movimento de valorização da imigração italiana no estado, Paulo Massolini, rebate declarações do chanceler italiano Antonio Tajani feitas durante passagem pelo Brasil, segundo reportagem da Insieme.

O que Tajani disse no Brasil

Durante visita ao país, o ministro dos Assuntos Exteriores da Itália, Antonio Tajani, questionou por que a italianidade teria sido, em suas palavras, "abandonada por gerações" entre os descendentes de imigrantes italianos no Brasil. A fala, feita em contexto de agenda oficial, rapidamente circulou entre veículos e redes ligadas à diáspora ítalo-brasileira, provocando reações críticas de lideranças comunitárias que veem na declaração um desconhecimento da história real da imigração italiana no país.

Tajani é um dos principais nomes por trás do Decreto Tajani (DL 36/2025, convertido na Lei 74/2025), que restringiu de forma significativa o acesso à cidadania italiana por descendência para quem não é filho ou neto direto de italiano nato. A medida, que já provocou forte impacto entre descendentes espalhados pelo Brasil e por outros países de imigração italiana, é acompanhada de perto pelo Raízes Italianas, que tem cobrido as consequências jurídicas da nova lei para quem busca o reconhecimento da própria origem.

A resposta de Massolini em Talian

A resposta de Paulo Massolini, segundo a Insieme, não veio em italiano padrão nem em português — foi gravada inteiramente em Talian, o idioma que milhares de famílias do interior do Rio Grande do Sul preservaram por gerações, mesmo sem qualquer apoio institucional vindo da Itália. Massolini, médico e uma das vozes mais respeitadas do movimento de resgate da cultura ítalo-gaúcha, usou o próprio dialeto como argumento: se a italianidade tivesse sido "abandonada", não haveria como ele estar se expressando naquela língua décadas depois da chegada dos primeiros imigrantes.

Na gravação, Massolini acusa Tajani de desconhecer a trajetória real da imigração italiana no Brasil — marcada por décadas de isolamento em colônias rurais, repressão linguística durante o Estado Novo de Getúlio Vargas e ausência quase total de políticas de manutenção cultural vindas da própria Itália. Para ele, a comunidade não abandonou a italianidade: ela a manteve viva por conta própria, muitas vezes apesar do Estado italiano, e não graças a ele.

A escolha de responder em Talian, e não em italiano ou português, reforça o próprio argumento de Massolini: a existência da língua, falada até hoje em municípios da Serra Gaúcha e de outras regiões colonizadas por italianos, é prova concreta de uma identidade que resistiu ao tempo sem depender de reconhecimento oficial de Roma.

Por que isso importa para descendentes

O episódio ganha relevância porque o Talian é reconhecido oficialmente como patrimônio linguístico e cultural da imigração italiana no Sul do Brasil, com registro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como referência cultural brasileira. Trata-se de um idioma vivo, transmitido oralmente entre gerações em comunidades rurais, e que segue sendo falado, ensinado e celebrado em festas e encontros comunitários pelo interior gaúcho.

A troca de farpas entre Massolini e o chanceler italiano reacende um debate mais amplo sobre como a Itália enxerga sua própria diáspora. Enquanto o governo italiano recente tem adotado medidas que dificultam o acesso à cidadania por descendência, comunidades como as do Rio Grande do Sul reivindicam reconhecimento pela forma como preservaram cultura, língua e tradições ao longo de mais de um século, muitas vezes sem qualquer apoio prático vindo da Itália.

Para os descendentes que acompanham as mudanças na legislação de cidadania, episódios como esse têm peso simbólico: mostram que a relação entre a Itália oficial e a diáspora ítalo-brasileira segue marcada por tensões, mesmo em meio à retórica sobre laços de sangue e identidade compartilhada. O Raízes Italianas segue acompanhando os desdobramentos do caso e outras notícias envolvendo a comunidade ítalo-brasileira e as políticas do governo italiano voltadas à diáspora.

Quem se interessa por temas ligados à cultura, à língua e ao cotidiano de quem vive entre os dois países pode acompanhar também as coberturas de Vida na Itália publicadas pelo portal.

O caso ilustra como a fala de uma autoridade italiana, mesmo quando dirigida a plateias oficiais, pode repercutir com força entre comunidades que carregam a imigração como parte central de sua identidade — e que, cada vez mais, não hesitam em responder, inclusive na própria língua que ajudaram a manter viva.

Fonte: Insieme

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